sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Grávidas e prioridades – “São gases, senhor, são gases…”

Semana 35

O momento em que uma mulher descobre que está grávida muda crucialmente toda a sua existência. Desde aí nada mais será igual. Não deixa de ser interessante que um momento de tal magnitude se anuncie com algo tão prosaico como fazer xixi para uma espécie caneta, mas em matéria de episódios escatológicos estamos ainda tão verdinhas nessa fase que nem me vou alongar muito sobre o tema. Normalmente após aparecerem os famigerados tracinhos na janelinha qualquer mulher é acometida por lampejos de auto reflexão. Eu pelo menos pensei imediatamente “ Agora é que te lixaste…”
Mas a partir daí a vida começa a mudar e nós também aos olhos dos outros. Sucedem-se explosões de alegria, momentos de emoção e de um modo geral comentários simpáticos desde os nossos amigos e familiares até perfeitos estranhos na rua que se afadigam em sorrisos alegres, perguntas sobre a criança e alguns mais afoitos até se atrevem a fazer festinhas na barriga.
Contudo, se há lugar onde a grávida pode contar com passar despercebida e misturar-se totalmente com a multidão, é nas filas prioritárias dos supermercados. Estranhamente, as cerca de sete pessoas aparentemente saudáveis que ocupam aquele espaço não parecem nada interessadas em nós pela maneira ostensiva como viram as costas e fingem não ver o nosso abdominal proeminente. Mas estou decerto a ser muito injusta!! Afinal uma grávida passa nove meses a sentir-se miserável por ser vista como um mero receptáculo e no único momento em que é tratada como uma simples cidadã, destituída de qualquer prerrogativa especial, fica ofendida! De facto…as hormonas tornam-nos pequenos monstros.
Ou então (outra teoria que me parece bastante plausível) pode dar-se o caso de naquele preciso momento e lugar se terem juntado todas as pessoas daquele supermercado acometidas por displasias da anca, síndromes vertiginosos e ataques de pé-de-atleta. Tudo situações de extrema gravidade e com necessidade de atendimento prioritário, como se sabe…
Apesar do tal abdominal proeminente que nesta fase já não deixa margem para dúvidas, acabo sempre por evitar estas filas por variadíssimas razões, sendo que a mais prosaica se resume à minha falta de capacidade de gerir conflitos. Uma vez uma amiga minha, com esposo, filho mais velho e barriga de largos meses ouviu a seguinte pérola: “ Mas a senhora está acompanhada pelo seu marido!!!” Assim como se a prioridade dela acabasse onde o caparro dele começa… Ou como é que se reage perante outro clássico? “Olhe que a minha mulher teve 7 filhos e nunca pediu abébias para nada!!”. Pois…nós dantes também vivíamos em cavernas e não dominávamos o fogo. Já viu as coisas espectaculares que as mudanças de atitude podem conseguir?!
Por outra lado, e por alguma força cósmica que desconheço, parece que no preciso momento em que decido ir às compras, exércitos de pessoas prioritárias têm a mesma ideia que eu. Como naquela teoria em que o bater das asas de uma borboleta na China provoca um terramoto na América, no exacto instante em que eu saio de casa para ir às compras, um pouco por toda a cidade multidões de prioritários sacam das suas cadeiras de roda, das suas muletas e dos seus carrinhos de trigémeos e dirigirem-se ao mesmo supermercado que eu. E a avaliar pela quantidade de compras que empurram, estão até a preparar-se para o fim do mundo… Torna-se por isso um pouco inglório esperar, com chocapics numa mão e cuecas descartáveis na outra, que esta malta acabe de abastecer o bunker.
Noutras alturas, a fila prioritária tem pouca gente e vou até lá, mas nestes casos está sempre à minha frente uma velhinha a comprar papo-secos ou malta jovem a comprar vodka e coca-cola. Da primeira tenho pena: o meu carrinho de compras deve representar dois terços da sua reforma. Com os segundos, já não sei comunicar: “Puto, desanda e dá lugar à cota que parece uma baleia e que ainda por cima vai pra sete meses que não toca numa gota de álcool e num cigarro… Vai mazé actualizar o twita, o facebuk ou pôr comments nas fotos da Miley Cyrus c’o macaquinho às costas e baza!!”. (Não ia resultar, pois não?)
Mas é claro que nem sempre corre mal! Há gente que me dá a vez sem eu pedir, há senhoras que abrem as caixas dos supermercados de propósito para eu ser atendida, há meninas atenciosas que fazem o tal comentário simpático enquanto scanam o avio do mês. Eu sei que deveria marimbar-me para os outros e aproveitar a prioridade, mas custa-me impor a minha presença, fazer-me notada, dizer “estou aqui e cheguei!”
É que eu sou uma pessoa simples, não desfazendo…

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A solidariedade na gravidez

As pessoas experientes que me rodeiam, portadoras de uma sapiência quase tão vasta como todos os números até agora publicados do Borda d'Agua e do Seringador, já me aconselharam a ter alguns comportamentos por forma a manter a harmonia com a Ikea.

- "Agora tens de arrumar a louça da máquina!"
- Agora, tens de ter paciência com ela!"
- "Agora não a podes levar contigo para os boot camps!"
- "Agora não podes passar tanto tempo a ver a Fátima Lopes!"

 Da minha parte, fiz o possível. Sou de opinião que, entre o casal, deve haver solidariedade. Alguns pequenos truques:

I. O Abdómen

Na mulher, o abdomen aumenta paulatinamente de volume, sem que se faça absolutamente nada.  Nota-se uma linha que separa a direita da esquerda, em cima da estrutura anteriormente conhecida por umbigo, e que agora serve para ligar o tubo da aspiração central.
No meu caso, o abdomen também aumentou paulatinamente de volume.  Contudo, este aumento teve de ser feito à custa da ingestão massiva de cerveja. Relativamente à linha de que falei, separa os dois terços superiores do terço inferior. Chama-se cinto das calças.

II. O humor.

 Não há mulher grávida que se preze que não chore de forma discreta e  suave, qual conduta da EPAL após ser atingida por uma retroescavadora, quando vê uma situação que desperta o mínimo de comoção a qualquer boa mãe de família, como umas botinhas de lã onde lhes cabe o polegar...
Para mim, tive de utilizar os jogos do Benfica (ou do Sporting, depois de chegar o Natal...) Isto, porque a situação socio-economica do País já nos secou as lágrimas

III. Os espelhos e os diminutivos

Por um qualquer motivo que desconheço, os espelhos cá de casa estão armados em pseudointelectuais: aparentam reflectir a imagem da Montserrat Caballé, de forma progressiva, quando a Ikea se vê ao espelho. Pelo menos é o que ela me diz!
Por outro lado, há uma tendência crescente para a gestante utilizar ad nauseam os sufixos -inho, -ino e -ito, da mesma forma que os gestores utilizam o verbo operacionalizar, ou o Jorge Jesus usa a pseudopalavra "prontos!".

Eu, que até gosto de ópera e já estava, pessoalmente, habituado à imagem do Luciano Pavarotti no espelho, nem estranhei... eu bem dizia que não deviamos ter comprado os espelhos na antiga Feira Popular...
Como ser solidário nesta situação?
Poderia pedir-lhe para, de vez em quando, trautear o "O mio babbino caro", mas não acho isso minimamente construtivo, e queria poupar os vizinhos a tamanho suplício...
Fui encontrar a resposta nos autores franceses e, subsidiariamente, na secção de sofás do catálogo do IKEA, e fiz um mix. Acho a expressão "mon petit Ikea Stockholm" incomparavelmente romântica. 
Ela, infelizmente, não achou, e quis praticar kickboxing comigo.

Eu até vi o gesto como positivo, porque o exercício físico moderado, dizem as mentes avisadas, ao contrário da assistência às actuações dos cantores pimba do Portugal em Festa e do Somos Portugal, desenvolve os neurónios...

IV. O achar "fofinho" tudo quanto mexe e tem menos de três anos

Não sei porque alteração sensorio-perceptiva, a Ikea agora acha piada a tudo quanto é cria de humano, tem duas pernas e dois braços e faz Gugudadá... nem que se pareça com um Alien e emita grunhidos. Normalmente, é sintoma disto um gritinho histérico, que faz lembrar uma ambulância, e a abertura subsequente de uma pequena conduta da EPAL...

Eu devo dizer que sempre fui solidário com ela. Sempre achei piada a tudo o que fosse cria de humano, tivesse mais de 18 anos, tivesse cerca de 86 de busto, 60 de cintura e 86 de ancas... mas isso foi antes de a conhecer. Agora, descobri que sou e sempre fui fã do catálogo de sofás do Ikea... 



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Da relevância dos Almanaques na prática obstétrica

Semana 34 - faltam 6 semanas

A santa avó do rebento, sempre na senda do bem comum e do serviço público, já recorreu à ajuda das vizinhas e ao almanaque Borda d’Água para prever com exactidão a data de nascimento da criança. Das três vezes que me ligou sobre esta temática, apontou sempre com o mesmo grau de certeza na voz três datas distintas: uma que me parece inverosímil, outra que não me dava jeitinho nenhum e finalmente a terceira que coincide com a data apontada pela médica…
Atenção… Não me interpretem mal!! Eu não estou a desdenhar da sabedoria dos antigos, dos ciclos lunares e da configuração do Stonehenge, vestindo a capa da racional empedernida de método científico à lapela! O problema é que lá em casa sempre seguimos mais “O Seringador” e tratávamos o Borda d’Água com desdém…
Ora “O Seringador”, para quem não sabe, apresenta-se como um “reportório crítico- jocoso e com prognósticos” para cada ano. Nas suas páginas sapientes podemos consultar anedotas, provérbios, os ciclos lunares e de marés, bem como saber qual a melhor altura para plantar a batata-doce. Convenhamos… tudo coisas de extrema utilidade nos dias que correm! Quantas vezes desejei durante o Verão ainda o ter em casa, principalmente para não chegar à praia e descobrir que afinal a areia se reduzia a dois palmos ocupados por hordas de famílias e lancheiras e criancinhas aos berros…(ehehehe, cheira-me que vou engolir estas palavras algures no próximo ano!)
Durante a minha infância, a chegada do “Seringador” lá a casa era tratada com o respeito e a veneração das pessoas importantes. O meu avô fazia questão de o comprar ano após ano, embora nunca na varanda do T2 tenham florescido batatas ou ervilhas tortas. Quando finalmente a minha mãe o desencantava nalguma papelaria perdida da Baixa, o avô Casimiro esboçava um leve sorriso acompanhado de uma indisfarçável satisfação – o mundo podia de novo avançar tranquilo nos seus eixos!
Encontrar o “Seringador” afigurava-se tarefa de extrema dificuldade, tal como desencantar nas lojas de Lisboa as lãs que precisávamos para os trabalhos manuais ou a caneta de ponta especial para o desenho. Com isto tudo podíamos nós bem… a prof de desenho tinha que amochar com a canetinha do Bazar de Algés e o trabalho no tear crescia com cores inenarráveis e com lã que se partia a casa passo. Mas no dia em que naquela casa entrou o “Borda d’Água” (porque não havia meio de o “Seringador aparecer) o meu avô ficou triste e disse com uma certa mágoa na voz “não é bem a mesma coisa…” Não sei como vivemos esse ano mas de certeza que as marés andaram desencontradas, que as sardinheiras murcharam na varanda e que as placas tectónicas deram sinal de si.
Eu e a minha irmã adorávamos o “Seringador”, por razões que vão além da já manifesta utilidade do almanaque. As páginas brancas e grossas, pejadas de tinta preta e quase sem desenhos, vinham todas coladas umas às outras e o meu avô, que já não via bem, passava-nos o seu canivete para que pudéssemos cortar as páginas e aceder a todo o manancial de sabedoria que de lá emanava. Eram outros tempos de facto… hoje os avós protegem as tomadas, naquela altura nós tínhamos acesso livre a canivetes, jeropiga e medicamentos. Da última vez que reparei, ainda temos ambas os dedos todos nas mãos, não somos alcoólicas nem viciadas em metanfetaminas…
Claro que a minha irmã liderava esta tarefa, não só por ser mais velha e ter mais destreza mas também porque eu de vez em quando cortava mal as páginas e ao fim de pouco tempo estava a esculpir artisticamente a madeira da mesa. Claro que nunca assumi isto e acho que consegui disfarçar a coisa com o desgaste normal do material! Toda a gente sabe que a madeira é assim a modos que… fraquinha e cheia de bichos que comem tudo em círculos perfeitamente delineados e em rectas!

Ao lembrar-me destes pequenos pormenores não consigo deixar de sorrir e ter saudades dessa infância feliz e cheia de pequenos nadas, de desejar que o bebé também a tenha (de preferência sem acesso a canivetes) e só por causa disso hei-de ir à Baixa procurar o Seringador, ele de certeza que ainda anda por aí e não me vai falhar uma vez mais! Vou contar as luas e saber com toda a certeza e fiabilidade se as datas batem certo. Embora, estou certa que o avô Casimiro concordaria, o importante é que a criança nasça com saúde!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Podem parar o carrossel? Eu desço aqui ó fáxavor…

Semana 33 – faltam 7 semanas… 
(wtf?!?!?!)

Dizem os maratonistas e os corredores de longa distância que há um momento em que embatem no “muro”. O turbilhão físico e emocional para quem pratica este desporto pode ir desde pernas pesadas, fortes dores musculares, cansaço extremo e diminuição da capacidade de concentração, colocando em sério risco a realização da prova. Para quem não corre, como eu, podemos comparar isto com tudo o que nos acontece ao minuto 5 de cada intervenção do Presidente da República ou de qualquer membro do Governo…
Considerações políticas à parte, parece-me que haverá um momento semelhante nas gravidezes… Uma pessoa chega a dada altura e apercebe-se que deve ter andado a brincar este tempo todo. Eu pelo menos por mim falo! Antes de engravidar tinha todos os planos estabelecidos para garantir uma vida uterina saudável à criança: momentos culturais diversificados, exposição precoce à música clássica, aulas de yoga para gestantes, sessões fotográficas semanais que documentassem ao milímetro o crescimento da barriga… Enfim, olho para trás e apercebo-me que pouco mais fiz do que comer e dormir. E mesmo assim, esta última actividade cada vez pior, com dores nas costas, nas ancas e sonhos recorrentes em que há sempre alguém a dizer “é como se estivesse a fazer cócó”. (ah…as incontáveis bênçãos dos cursos de preparação para o parto…) No meio de todo esse regabofe que deve fazer de mim a grávida mais desnaturada que já pisou esta terra (nem uma foto no facebook, senhores…nem isso!!), diga-se em minha defesa que ainda vou a tempo de fazer uma barriga de gesso…
Mas se sentir o tempo escoar é assustador, o que vem para a frente ainda é pior. Eu não falo do quartinho que está por pintar, das vinte fraldas que ainda não bordei com o nome do petiz, do ovinho mais o berço mais a alcofa mais não-sei-o-quê que é preciso recolher em casa de uns amigos salvadores que já tiveram filhos … Isto tudo não é nada comparado com o que por aí vem! Eu falo de coisas bem mais sérias! A semana passada descobri leite azedo no frigorífico e daqui a sete semanas vou ser mãe! Devem estar a gozar comigo…
Para mim, a prova maior do desconcerto do mundo não é os bons passarem grandes tormentos e os maus nadarem em mares de contentamento, como dizia o outro… Para mim, a prova maior é um qualquer deus ou deuses, ou força cósmica universal achar que eu estou preparada para ser mãe e presentear-me com um bebé perfeito, de coração de ferro e percentil acima da média. Eu, euzinha, esta aqui que vos escreve e que acha que o Big Mac é uma refeição perfeitamente aceitável, que não sabe escolher peixe fresco na praça, que nunca leu os clássicos russos e que tem sérias dúvidas que Deus exista. Estão a ver o que por aí vem? “ Sim filho, podes ir com os teus amigos satânicos almoçar ao macdonalds e de caminho traz aqueles apontamentos Europa América à mãe sobre a Anna Karennina”… 
Mas isto não melhora, perguntarão vocês?! Não é bonito e mágico gerar uma vida?! Não é um momento maravilhoso sentir o bebé a dar pontapés e a mexer na barriga?! Pois…dizem isso porque as costelas não são vossas!!
A mim, o que me consola nestes momentos de dúvida é lembrar-me de uma história que a minha querida avozinha contava e que tinha muita graça… A minha avó, essa santa senhora que teve dois filhos em casa, que jamais espreitou por uma ecografia, que deve ter comido a alface toda deste mundo sem pensar que envenenava as crianças e que nunca se preocupou em escolher o modelo certo de soutien de amamentação! Não foi por isso que as crianças não se tornaram gente, quanto mais não seja estou cá eu para atestar isso…
Claro que não consigo reproduzir a história toda – eu estou grávida e apesar de carregar dois cérebros estão os dois a hibernar, ok?!- mas a punch line tornou-se o melhor discurso motivacional da nossa infância e dizia qualquer coisa como “se os outros as constroem também nós as havemos de construir”. Ora e é isso que eu penso, se toda a gente antes de mim conseguiu eu também hei-de conseguir! Batalhões e batalhões de mulheres passaram por isto antes, a espécie humana anda a subsidiar-se deste modo há milhares de anos e não é agora que alguma areia misteriosa vai emperrar a engrenagem!



(Não é…pois não!!!??)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Não-Pontapé de saída

-Ike, tenho uma coisa para te dizer...
- Deixa-me adivinhar... duas hipóteses: ou me vais dizer que te chamavas Armando antes de eu te conhecer... ou estás grávida...
- Sim, estou grávida...
- A sério? 

Neste ponto, a trilha incidental, se existisse,  daria algumas das notas do Shining.
Várias dúvidas filosófico-existenciais acorreram à minha mente, povoada que está de telenovelas, histórias de comissões de protecção de crianças e jovens e profecias de São Medina Carreira..:

1) O que é que eu vou fazer à minha vida?

2) Será que eu estou preparado para ser pai?

3) Como é que eu vou explicar à criança que o Benfica nem sempre ganha e que o Pai Natal tem o mesmo estatuto veridico da existência permanente de  Magalhães para todos os meninos?

4) Como é que as questões anteriores se compatibilizam com as profecias apocalipticas do Santo anteriormente citado?

E a aventura começou...