As pessoas experientes que me rodeiam, portadoras de uma sapiência quase tão vasta como todos os números até agora publicados do Borda d'Agua e do Seringador, já me aconselharam a ter alguns comportamentos por forma a manter a harmonia com a Ikea.
- "Agora tens de arrumar a louça da máquina!"
- Agora, tens de ter paciência com ela!"
- "Agora não a podes levar contigo para os boot camps!"
- "Agora não podes passar tanto tempo a ver a Fátima Lopes!"
Da minha parte, fiz o possível. Sou de opinião que, entre o casal, deve haver solidariedade. Alguns pequenos truques:
I. O Abdómen
Na mulher, o abdomen aumenta paulatinamente de volume, sem que se faça absolutamente nada. Nota-se uma linha que separa a direita da esquerda, em cima da estrutura anteriormente conhecida por umbigo, e que agora serve para ligar o tubo da aspiração central.
No meu caso, o abdomen também aumentou paulatinamente de volume. Contudo, este aumento teve de ser feito à custa da ingestão massiva de cerveja. Relativamente à linha de que falei, separa os dois terços superiores do terço inferior. Chama-se cinto das calças.
II. O humor.
Não há mulher grávida que se preze que não chore de forma discreta e suave, qual conduta da EPAL após ser atingida por uma retroescavadora, quando vê uma situação que desperta o mínimo de comoção a qualquer boa mãe de família, como umas botinhas de lã onde lhes cabe o polegar...
Para mim, tive de utilizar os jogos do Benfica (ou do Sporting, depois de chegar o Natal...) Isto, porque a situação socio-economica do País já nos secou as lágrimas
III. Os espelhos e os diminutivos
Por um qualquer motivo que desconheço, os espelhos cá de casa estão armados em pseudointelectuais: aparentam reflectir a imagem da Montserrat Caballé, de forma progressiva, quando a Ikea se vê ao espelho. Pelo menos é o que ela me diz!
Por outro lado, há uma tendência crescente para a gestante utilizar ad nauseam os sufixos -inho, -ino e -ito, da mesma forma que os gestores utilizam o verbo operacionalizar, ou o Jorge Jesus usa a pseudopalavra "prontos!".
Eu, que até gosto de ópera e já estava, pessoalmente, habituado à imagem do Luciano Pavarotti no espelho, nem estranhei... eu bem dizia que não deviamos ter comprado os espelhos na antiga Feira Popular...
Como ser solidário nesta situação?
Poderia pedir-lhe para, de vez em quando, trautear o "O mio babbino caro", mas não acho isso minimamente construtivo, e queria poupar os vizinhos a tamanho suplício...
Fui encontrar a resposta nos autores franceses e, subsidiariamente, na secção de sofás do catálogo do IKEA, e fiz um mix. Acho a expressão "mon petit Ikea Stockholm" incomparavelmente romântica.
Ela, infelizmente, não achou, e quis praticar kickboxing comigo.
Eu até vi o gesto como positivo, porque o exercício físico moderado, dizem as mentes avisadas, ao contrário da assistência às actuações dos cantores pimba do Portugal em Festa e do Somos Portugal, desenvolve os neurónios...
IV. O achar "fofinho" tudo quanto mexe e tem menos de três anos
Não sei porque alteração sensorio-perceptiva, a Ikea agora acha piada a tudo quanto é cria de humano, tem duas pernas e dois braços e faz Gugudadá... nem que se pareça com um Alien e emita grunhidos. Normalmente, é sintoma disto um gritinho histérico, que faz lembrar uma ambulância, e a abertura subsequente de uma pequena conduta da EPAL...
Eu devo dizer que sempre fui solidário com ela. Sempre achei piada a tudo o que fosse cria de humano, tivesse mais de 18 anos, tivesse cerca de 86 de busto, 60 de cintura e 86 de ancas... mas isso foi antes de a conhecer. Agora, descobri que sou e sempre fui fã do catálogo de sofás do Ikea...
Sem comentários:
Enviar um comentário