sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Da relevância dos Almanaques na prática obstétrica

Semana 34 - faltam 6 semanas

A santa avó do rebento, sempre na senda do bem comum e do serviço público, já recorreu à ajuda das vizinhas e ao almanaque Borda d’Água para prever com exactidão a data de nascimento da criança. Das três vezes que me ligou sobre esta temática, apontou sempre com o mesmo grau de certeza na voz três datas distintas: uma que me parece inverosímil, outra que não me dava jeitinho nenhum e finalmente a terceira que coincide com a data apontada pela médica…
Atenção… Não me interpretem mal!! Eu não estou a desdenhar da sabedoria dos antigos, dos ciclos lunares e da configuração do Stonehenge, vestindo a capa da racional empedernida de método científico à lapela! O problema é que lá em casa sempre seguimos mais “O Seringador” e tratávamos o Borda d’Água com desdém…
Ora “O Seringador”, para quem não sabe, apresenta-se como um “reportório crítico- jocoso e com prognósticos” para cada ano. Nas suas páginas sapientes podemos consultar anedotas, provérbios, os ciclos lunares e de marés, bem como saber qual a melhor altura para plantar a batata-doce. Convenhamos… tudo coisas de extrema utilidade nos dias que correm! Quantas vezes desejei durante o Verão ainda o ter em casa, principalmente para não chegar à praia e descobrir que afinal a areia se reduzia a dois palmos ocupados por hordas de famílias e lancheiras e criancinhas aos berros…(ehehehe, cheira-me que vou engolir estas palavras algures no próximo ano!)
Durante a minha infância, a chegada do “Seringador” lá a casa era tratada com o respeito e a veneração das pessoas importantes. O meu avô fazia questão de o comprar ano após ano, embora nunca na varanda do T2 tenham florescido batatas ou ervilhas tortas. Quando finalmente a minha mãe o desencantava nalguma papelaria perdida da Baixa, o avô Casimiro esboçava um leve sorriso acompanhado de uma indisfarçável satisfação – o mundo podia de novo avançar tranquilo nos seus eixos!
Encontrar o “Seringador” afigurava-se tarefa de extrema dificuldade, tal como desencantar nas lojas de Lisboa as lãs que precisávamos para os trabalhos manuais ou a caneta de ponta especial para o desenho. Com isto tudo podíamos nós bem… a prof de desenho tinha que amochar com a canetinha do Bazar de Algés e o trabalho no tear crescia com cores inenarráveis e com lã que se partia a casa passo. Mas no dia em que naquela casa entrou o “Borda d’Água” (porque não havia meio de o “Seringador aparecer) o meu avô ficou triste e disse com uma certa mágoa na voz “não é bem a mesma coisa…” Não sei como vivemos esse ano mas de certeza que as marés andaram desencontradas, que as sardinheiras murcharam na varanda e que as placas tectónicas deram sinal de si.
Eu e a minha irmã adorávamos o “Seringador”, por razões que vão além da já manifesta utilidade do almanaque. As páginas brancas e grossas, pejadas de tinta preta e quase sem desenhos, vinham todas coladas umas às outras e o meu avô, que já não via bem, passava-nos o seu canivete para que pudéssemos cortar as páginas e aceder a todo o manancial de sabedoria que de lá emanava. Eram outros tempos de facto… hoje os avós protegem as tomadas, naquela altura nós tínhamos acesso livre a canivetes, jeropiga e medicamentos. Da última vez que reparei, ainda temos ambas os dedos todos nas mãos, não somos alcoólicas nem viciadas em metanfetaminas…
Claro que a minha irmã liderava esta tarefa, não só por ser mais velha e ter mais destreza mas também porque eu de vez em quando cortava mal as páginas e ao fim de pouco tempo estava a esculpir artisticamente a madeira da mesa. Claro que nunca assumi isto e acho que consegui disfarçar a coisa com o desgaste normal do material! Toda a gente sabe que a madeira é assim a modos que… fraquinha e cheia de bichos que comem tudo em círculos perfeitamente delineados e em rectas!

Ao lembrar-me destes pequenos pormenores não consigo deixar de sorrir e ter saudades dessa infância feliz e cheia de pequenos nadas, de desejar que o bebé também a tenha (de preferência sem acesso a canivetes) e só por causa disso hei-de ir à Baixa procurar o Seringador, ele de certeza que ainda anda por aí e não me vai falhar uma vez mais! Vou contar as luas e saber com toda a certeza e fiabilidade se as datas batem certo. Embora, estou certa que o avô Casimiro concordaria, o importante é que a criança nasça com saúde!

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