Semana 34 - faltam 6 semanas
A santa avó do rebento, sempre na
senda do bem comum e do serviço público, já recorreu à ajuda das vizinhas e ao
almanaque Borda d’Água para prever com exactidão a data de nascimento da criança.
Das três vezes que me ligou sobre esta temática, apontou sempre com o mesmo
grau de certeza na voz três datas distintas: uma que me parece inverosímil,
outra que não me dava jeitinho nenhum e finalmente a terceira que coincide com
a data apontada pela médica…
Atenção… Não me interpretem mal!!
Eu não estou a desdenhar da sabedoria dos antigos, dos ciclos lunares e da
configuração do Stonehenge, vestindo a capa da racional empedernida de método
científico à lapela! O problema é que lá em casa sempre seguimos mais “O
Seringador” e tratávamos o Borda d’Água com desdém…
Ora “O Seringador”, para quem não
sabe, apresenta-se como um “reportório crítico- jocoso e com prognósticos” para
cada ano. Nas suas páginas sapientes podemos consultar anedotas, provérbios, os
ciclos lunares e de marés, bem como saber qual a melhor altura para plantar a batata-doce.
Convenhamos… tudo coisas de extrema utilidade nos dias que correm! Quantas
vezes desejei durante o Verão ainda o ter em casa, principalmente para não
chegar à praia e descobrir que afinal a areia se reduzia a dois palmos ocupados
por hordas de famílias e lancheiras e criancinhas aos berros…(ehehehe,
cheira-me que vou engolir estas palavras algures no próximo ano!)
Durante a minha infância, a
chegada do “Seringador” lá a casa era tratada com o respeito e a veneração das
pessoas importantes. O meu avô fazia questão de o comprar ano após ano, embora
nunca na varanda do T2 tenham florescido batatas ou ervilhas tortas. Quando
finalmente a minha mãe o desencantava nalguma papelaria perdida da Baixa, o avô
Casimiro esboçava um leve sorriso acompanhado de uma indisfarçável satisfação –
o mundo podia de novo avançar tranquilo nos seus eixos!
Encontrar o “Seringador”
afigurava-se tarefa de extrema dificuldade, tal como desencantar nas lojas de
Lisboa as lãs que precisávamos para os trabalhos manuais ou a caneta de ponta
especial para o desenho. Com isto tudo podíamos nós bem… a prof de desenho
tinha que amochar com a canetinha do Bazar de Algés e o trabalho no tear
crescia com cores inenarráveis e com lã que se partia a casa passo. Mas no dia
em que naquela casa entrou o “Borda d’Água” (porque não havia meio de o “Seringador
aparecer) o meu avô ficou triste e disse com uma certa mágoa na voz “não é bem
a mesma coisa…” Não sei como vivemos esse ano mas de certeza que as marés
andaram desencontradas, que as sardinheiras murcharam na varanda e que as
placas tectónicas deram sinal de si.
Eu e a minha irmã adorávamos o “Seringador”,
por razões que vão além da já manifesta utilidade do almanaque. As páginas
brancas e grossas, pejadas de tinta preta e quase sem desenhos, vinham todas
coladas umas às outras e o meu avô, que já não via bem, passava-nos o seu
canivete para que pudéssemos cortar as páginas e aceder a todo o manancial de sabedoria
que de lá emanava. Eram outros tempos de facto… hoje os avós protegem as
tomadas, naquela altura nós tínhamos acesso livre a canivetes, jeropiga e medicamentos.
Da última vez que reparei, ainda temos ambas os dedos todos nas mãos, não somos
alcoólicas nem viciadas em metanfetaminas…
Claro que a minha irmã liderava
esta tarefa, não só por ser mais velha e ter mais destreza mas também porque eu
de vez em quando cortava mal as páginas e ao fim de pouco tempo estava a
esculpir artisticamente a madeira da mesa. Claro que nunca assumi isto e acho
que consegui disfarçar a coisa com o desgaste normal do material! Toda a gente
sabe que a madeira é assim a modos que… fraquinha e cheia de bichos que comem
tudo em círculos perfeitamente delineados e em rectas!
Ao lembrar-me destes pequenos
pormenores não consigo deixar de sorrir e ter saudades dessa infância feliz e
cheia de pequenos nadas, de desejar que o bebé também a tenha (de preferência
sem acesso a canivetes) e só por causa disso hei-de ir à Baixa procurar o
Seringador, ele de certeza que ainda anda por aí e não me vai falhar uma vez
mais! Vou contar as luas e saber com toda a certeza e fiabilidade se as datas
batem certo. Embora, estou certa que o avô Casimiro concordaria, o importante é
que a criança nasça com saúde!
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