Semana 35
O momento em que uma mulher
descobre que está grávida muda crucialmente toda a sua existência. Desde aí
nada mais será igual. Não deixa de ser interessante que um momento de tal
magnitude se anuncie com algo tão prosaico como fazer xixi para uma espécie caneta,
mas em matéria de episódios escatológicos estamos ainda tão verdinhas nessa
fase que nem me vou alongar muito sobre o tema. Normalmente após aparecerem os
famigerados tracinhos na janelinha qualquer mulher é acometida por lampejos de
auto reflexão. Eu pelo menos pensei imediatamente “ Agora é que te lixaste…”
Mas a partir daí a vida
começa a mudar e nós também aos olhos dos outros. Sucedem-se explosões de
alegria, momentos de emoção e de um modo geral comentários simpáticos desde os
nossos amigos e familiares até perfeitos estranhos na rua que se afadigam em
sorrisos alegres, perguntas sobre a criança e alguns mais afoitos até se
atrevem a fazer festinhas na barriga.
Contudo, se há lugar onde a
grávida pode contar com passar despercebida e misturar-se totalmente com a
multidão, é nas filas prioritárias dos supermercados. Estranhamente, as cerca
de sete pessoas aparentemente saudáveis que ocupam aquele espaço não parecem
nada interessadas em nós pela maneira ostensiva como viram as costas e fingem
não ver o nosso abdominal proeminente. Mas estou decerto a ser muito injusta!!
Afinal uma grávida passa nove meses a sentir-se miserável por ser vista como um
mero receptáculo e no único momento em que é tratada como uma simples cidadã,
destituída de qualquer prerrogativa especial, fica ofendida! De facto…as
hormonas tornam-nos pequenos monstros.
Ou então (outra teoria que me
parece bastante plausível) pode dar-se o caso de naquele preciso momento e
lugar se terem juntado todas as pessoas daquele supermercado acometidas por
displasias da anca, síndromes vertiginosos e ataques de pé-de-atleta. Tudo
situações de extrema gravidade e com necessidade de atendimento prioritário,
como se sabe…
Apesar do tal abdominal
proeminente que nesta fase já não deixa margem para dúvidas, acabo sempre por
evitar estas filas por variadíssimas razões, sendo que a mais prosaica se
resume à minha falta de capacidade de gerir conflitos. Uma vez uma amiga minha,
com esposo, filho mais velho e barriga de largos meses ouviu a seguinte pérola:
“ Mas a senhora está acompanhada pelo seu marido!!!” Assim como se a prioridade
dela acabasse onde o caparro dele começa… Ou como é que se reage perante outro
clássico? “Olhe que a minha mulher teve 7 filhos e nunca pediu abébias para
nada!!”. Pois…nós dantes também vivíamos em cavernas e não dominávamos o fogo.
Já viu as coisas espectaculares que as mudanças de atitude podem conseguir?!
Por outra lado, e por alguma
força cósmica que desconheço, parece que no preciso momento em que decido ir às
compras, exércitos de pessoas prioritárias têm a mesma ideia que eu. Como
naquela teoria em que o bater das asas de uma borboleta na China provoca um
terramoto na América, no exacto instante em que eu saio de casa para ir às
compras, um pouco por toda a cidade multidões de prioritários sacam das suas
cadeiras de roda, das suas muletas e dos seus carrinhos de trigémeos e
dirigirem-se ao mesmo supermercado que eu. E a avaliar pela quantidade de
compras que empurram, estão até a preparar-se para o fim do mundo… Torna-se por
isso um pouco inglório esperar, com chocapics numa mão e cuecas descartáveis na
outra, que esta malta acabe de abastecer o bunker.
Noutras alturas, a fila
prioritária tem pouca gente e vou até lá, mas nestes casos está sempre à minha
frente uma velhinha a comprar papo-secos ou malta jovem a comprar vodka e
coca-cola. Da primeira tenho pena: o meu carrinho de compras deve representar
dois terços da sua reforma. Com os segundos, já não sei comunicar: “Puto, desanda
e dá lugar à cota que parece uma baleia e que ainda por cima vai pra sete meses
que não toca numa gota de álcool e num cigarro… Vai mazé actualizar o twita, o
facebuk ou pôr comments nas fotos da Miley Cyrus c’o macaquinho às costas e
baza!!”. (Não ia resultar, pois não?)
Mas é claro que nem sempre corre
mal! Há gente que me dá a vez sem eu pedir, há senhoras que abrem as caixas dos
supermercados de propósito para eu ser atendida, há meninas atenciosas que
fazem o tal comentário simpático enquanto scanam o avio do mês. Eu sei que deveria
marimbar-me para os outros e aproveitar a prioridade, mas custa-me impor a
minha presença, fazer-me notada, dizer “estou aqui e cheguei!”
É que eu sou uma pessoa simples,
não desfazendo…